O bitrem é uma das combinações de carga mais comuns nas estradas brasileiras, formado por um cavalo mecânico puxando dois semirreboques acoplados um no outro, e é ele que aparece quando o assunto é levar mais carga na mesma viagem.
Do lado de fora, muita gente confunde bitrem com rodotrem e com treminhão. A diferença está na forma de engate, no número de eixos e, principalmente, no peso que cada configuração pode levar, o que muda a exigência de autorização especial.
Neste guia, você vai ver como o bitrem é montado, quantos eixos ele tem, quanto pode carregar, em que casos precisa de AET, o que acontece quando passa do limite de peso e qual habilitação é exigida para dirigir.
O que é um bitrem
O bitrem é uma combinação de veículos de carga, a CVC, formada por uma unidade tratora e dois semirreboques ligados diretamente entre si. O primeiro semirreboque carrega na traseira uma quinta roda, e é nela que o segundo se apoia.
Essa ligação direta é a marca do bitrem e o que o diferencia do rodotrem, que usa uma peça intermediária entre os dois semirreboques. Na estrada, o conjunto também é chamado de carreta bitrem.
O objetivo da configuração é produtividade. Com dois implementos na mesma viagem, o transportador leva mais carga por motorista, por pedágio e por litro de diesel, o que reduz o custo por tonelada transportada.
Como ele é montado: cavalo mecânico e semirreboques
A unidade tratora é o cavalo mecânico, que pode ser trucado ou traçado conforme a exigência de tração e o peso do conjunto. Ele fornece a força e recebe o primeiro semirreboque na quinta roda.
O primeiro semirreboque leva carga e serve de apoio para o segundo, que se acopla na quinta roda traseira dele. Não existe dolly nessa montagem, que é justamente o elemento presente no rodotrem.
Cada semirreboque pode ter carroceria diferente conforme o tipo de carga, como graneleiro, sider, baú, tanque, porta-contêiner ou canavieiro. O que muda de uma aplicação para outra é a carroceria, não a lógica do engate.
Onde o bitrem pode circular
O bitrem circula normalmente nas rodovias que comportam o conjunto, respeitando as restrições de cada via. Alguns trechos urbanos, serras e rodovias estaduais têm limitação de comprimento, de horário ou de tipo de combinação, e a sinalização e a regulamentação local mandam nesse ponto.
Quando o conjunto ultrapassa os limites gerais de peso ou de comprimento, entra a exigência de autorização especial, com rota definida. Viagem longa esbarra ainda nas regras de jornada, que estão detalhadas na lei do descanso dos motoristas e valem independentemente da configuração do veículo.
Quantos eixos tem um bitrem
O número de eixos do conjunto soma os eixos do cavalo mecânico e os dos dois semirreboques. As duas configurações mais usadas são a de sete e a de nove eixos.
Bitrem de 7 eixos
O bitrem de sete eixos é o mais comum, com peso bruto total combinado de até 57 toneladas e comprimento de até 19,80 metros. Ele reúne um cavalo mecânico traçado e dois semirreboques de dois eixos cada.
Por ficar dentro dos limites gerais de peso e dimensão, é a configuração que dispensa autorização especial para circular, o que simplifica a operação e explica a popularidade na frota brasileira.
Bitrem de 9 eixos, a vanderleia
O bitrem de nove eixos chega a 74 toneladas de PBTC, com comprimento maior, e por isso depende de autorização especial de trânsito para rodar.
O apelido vanderleia vem do desenho dos eixos afastados uns dos outros no implemento. Como é apelido de estrada, ele aparece tanto para a carreta de três eixos espaçados quanto para o bitrem de nove eixos, então o certo é confirmar a configuração pelo documento do veículo, e não pelo nome usado na conversa.
Por que o número de eixos muda a carga permitida
A regra de peso no Brasil trabalha com dois limites ao mesmo tempo, o peso total do conjunto e o peso por eixo. Cada eixo suporta um valor máximo, e é a soma desses valores que forma o teto do conjunto.
Por isso acrescentar eixos aumenta a carga permitida. Mais eixos distribuem o peso em mais pontos de contato com o pavimento, o que preserva a pista e mantém a frenagem e a estabilidade dentro do que o projeto suporta.
Bitrem e rodotrem: qual a diferença
A diferença principal está no engate. No bitrem, o segundo semirreboque se apoia direto no primeiro. No rodotrem, existe um dolly entre eles, que é um cavalete com eixo próprio, e essa peça muda o comportamento do conjunto e o comprimento total.
Tabela comparativa
| Configuração | Eixos | PBTC máximo | Comprimento máximo | Autorização especial |
| Bitrem de 7 eixos | 7 | 57 t | 19,80 m | Não exigida |
| Bitrem de 9 eixos | 9 | 74 t | 30 m | Exigida |
| Rodotrem de 9 eixos | 9 | 74 t | 30 m | Exigida |
Os limites acima seguem a regra geral de pesos e dimensões das combinações de veículos de carga, prevista na Resolução CONTRAN nº 882/2021 e na regulamentação complementar. Trechos específicos podem ter restrição própria.
Outras combinações: Romeu e Julieta, tritrem e treminhão
O Romeu e Julieta é a combinação de um caminhão comum puxando um reboque, com PBTC de até 50 toneladas e comprimento de até 19,80 metros. Ele é comum no transporte de cana, de bebidas e de cargas regionais.
O tritrem leva três semirreboques e chega a 74 toneladas, com até 30 metros de comprimento. O treminhão trabalha com caminhão e mais de um reboque, com PBTC de até 63 toneladas e o mesmo teto de 30 metros.
Todas essas combinações seguem a mesma lógica do bitrem. Quanto maior o comprimento e o peso, maior a exigência de autorização, de trecho autorizado e de requisitos técnicos do conjunto.
Quanto um bitrem pode carregar
A capacidade útil não é o PBTC. O peso bruto total combinado inclui o veículo, os implementos e a carga, então a carga líquida é o que sobra depois de descontar a tara do conjunto.
Na prática, dois conjuntos com o mesmo PBTC podem levar quantidades diferentes de carga, porque a tara muda conforme o cavalo mecânico e o tipo de carroceria dos semirreboques. A conta certa é somar a tara do conjunto, que consta nos documentos dos veículos, e subtrair do PBTC permitido para aquela configuração.
PBTC e peso por eixo
Além do teto do conjunto, cada eixo tem seu próprio limite, definido pelo tipo de eixo e pela quantidade de pneus. É por isso que a distribuição da carga dentro da carroceria importa tanto quanto o total embarcado.
Carga mal distribuída reprova na balança mesmo com o peso total dentro do limite, e ainda castiga suspensão e pneus. Manter calibragem e desgaste sob controle faz parte da conta, além de manter à risca os cuidados com pneu de caminhão para não perder eixo de capacidade por problema de manutenção.
O que acontece quando passa do limite
Transitar com excesso de peso é infração de natureza média, prevista no artigo 231, inciso V, do Código de Trânsito Brasileiro, que admite percentual de tolerância quando o peso é aferido por equipamento, na forma estabelecida pelo CONTRAN.
A multa é acrescida a cada 200 quilos ou fração de excesso apurado, ou seja, quanto maior o excesso, maior o valor final. Para comparação, uma multa gravíssima parte de R$ 293,47 e sete pontos na carteira.
Além do valor, existe a consequência operacional. O veículo só segue viagem depois de descarregar o peso excedente, o que significa transbordo, atraso na entrega e custo extra para o transportador.
Quando o bitrem precisa de AET
A Autorização Especial de Trânsito é o documento expedido para veículo ou combinação de veículos de carga que não se enquadra nos limites de peso e dimensões estabelecidos pelo CONTRAN.
O bitrem de sete eixos, dentro de 57 toneladas e 19,80 metros, dispensa a AET. Já o de nove eixos, que chega a 74 toneladas e comprimento maior, depende da autorização para circular, assim como o rodotrem e o tritrem.
Vale lembrar que a autorização é do veículo, e o transportador tem obrigações próprias. Quem faz transporte remunerado de carga precisa manter o RNTRC ativo, exigência que existe em paralelo à AET.
Como solicitar a autorização
Nas rodovias federais, o pedido é feito ao DNIT pelo sistema SIAET, com cadastro prévio do solicitante. O pedido informa a configuração do conjunto, o peso, as dimensões e a rota pretendida.
Para trechos estaduais, a solicitação vai ao departamento de estradas de rodagem do estado, cada um com o próprio sistema e as próprias exigências. Viagem que passa por rodovia federal e estadual precisa das duas autorizações.
Antes de qualquer viagem, vale conferir se o veículo está regular. Dá para consultar a placa grátis e ver IPVA, licenciamento e multas em aberto pelo número da placa.
Onde a AET vale
A autorização vale para a rota informada no pedido, e mudança de trajeto exige nova solicitação. A validade vem impressa no documento e pode ser por viagem ou por período, conforme o tipo pedido.
Circular fora da rota autorizada ou com autorização vencida sujeita o transportador a autuação. Se a multa já veio, dá para consultar e parcelar multas pela placa na Zapay, junto com os demais débitos do veículo.
Perguntas frequentes sobre bitrem
Bitrem pode andar em qualquer rodovia?
Não, o bitrem não pode andar em qualquer rodovia. A circulação depende das restrições de cada via, que podem limitar comprimento, peso, horário ou tipo de combinação, e as configurações maiores só rodam nos trechos previstos na autorização especial.
Qual a velocidade máxima de um bitrem?
Onde não houver sinalização indicando outro limite, a velocidade máxima do bitrem é de 90 km/h, tanto em rodovia de pista dupla quanto de pista simples, conforme o artigo 61 do Código de Trânsito Brasileiro, que fixa esse teto para os veículos que não são automóveis, camionetas, caminhonetes e motocicletas.
Quanto custa um bitrem novo?
O preço de um bitrem novo varia conforme o cavalo mecânico escolhido, o tipo de carroceria dos dois semirreboques e a configuração de eixos, e por isso o valor sai de cotação com a fábrica ou o revendedor. O conjunto é vendido em partes, ou seja, cavalo e implementos são orçados separadamente.
Qual habilitação é preciso ter para dirigir um bitrem
Para dirigir um bitrem é preciso ter habilitação na categoria E, que o Código de Trânsito Brasileiro define como a do condutor de combinação de veículos cuja unidade acoplada tenha 6.000 quilos ou mais de peso bruto total.
